domingo, 18 de abril de 2010

A atração às vezes pode levar ao amor de algum predador

Hoje, ao acordar, era ainda muito cedo. Abri um lado da janela e me deparei com um céu muito azul, sem uma nuvem sequer. O vento, cortante como uma lâmina, atingiu meu rosto. Foi quando vi, pela fresta da persiana, um passarinho, talvez um pardal, a ciscar feliz de um lado para o outro: ele saltitava, revoava no mesmo lugar, parecia dançar sobre a grama alta do jardim, bicando de lá e de cá, numa curiosa coreografia, própria dos pequenos pássaros.

Absorta em meus pensamentos, fiquei ali, não sei por quanto tempo, até que percebi, no imenso silêncio que se fazia e na imobilidade da cena, algo de errado: uma paradeira estranha, um suspense, um terrível aviso - a ave se mantinha completamente parada sobre a grama verde. Abri mais a persiana e vi um enorme gato (ou seria uma gata), de longos pelos negros, macios e brilhantes, com os olhos imensos, verdes como a grama, as pupilas finas e pontiagudas como suas próprias unhas. Mas parecia uma longelínea estátua egípcia do que um animal de verdade. O passarinho o fitava bem nos olhos, duas esmeraldas perdidas num céu noturno, sem estrelas.

A ave parecia hipnotizada e ia se aproximando do felino aos poucos, perigosamente, numa estranha e indefinível atração, como que capturada por aqueles olhos, por aqueles pelos brilhando ao sol. Nenhum dos dois se mexia. O vento parou de soprar, as folhas não mais balançavam, fazendo com que a cena, no contorno da janela, parecesse um retrato, que ficaria ali, imóvel para sempre. Só as penas da ave pareciam tremelicar de êxtase, de resposta positiva ao apelo invisível do animal à sua frente.

De repente, sem aviso, o gato deu um rápido salto e abocanhou o passarinho. Apenas um pulo certeiro e a ave se abandonou às suas unhas, sem nenhuma tentativa de fuga, sem dar um pio ou sequer experimentar bater as asas. Simplesmente se deixou ir, sem reação ou defesa, como se estivesse esperando por isso, desde o início do encontro. Sendo arrastado pelo bichano, parecia estar cumprindo seu destino. Então, eles desapareceram do meu campo de visão, e a natureza se recompôs, com seus sons e suas cores. Mais tarde, ao sair de casa, encontrei as pequenas asas e as vísceras do pássaro num canto do jardim.

Quantos de nós ja passamos, ou ainda passaremos, por uma experiência dessa natureza, não é possível imaginar. A atração, o amor que alguém nos desperta, pode se expressar de maneira tão absoluta, tão absurda, que acabamos por nos comportar como o passarinho da cena. São sentimentos incontroláveis que, tomando conta das nossas ações, fazem com que a noção de perigo desapareça, e nos entregamos felizes à destruição que o ser amado nos reserva.

Impossível se defender. Impossível não ir de encontro a essa doce e destruidora experiência, que acaba por ser responsável por tantas vidas prejudicadas, por tantos lares desfeitos e corações partidos. Escapar, usar mecanismos próprios para defesa, se mostra inoperante. Como pequenos pássaros, nos entregamos ao amor de algum predador, que só espera uma oportunidade para desenvolver seus instintos de envolvimento, destruição e fuga. E dá-lhe calmantes, psicoterapias, visitas a magos e videntes, que podem até melhorar o aspecto geral da dor, mas a decepção, a angústia do engano continuam por muito tempo, talvez para sempre.

E o gato, o gato devorador e envolvente. Provavelmente, estará de volta ao jardim, talvez mesmo amanhã, para atrair outro passarinho ingênuo.

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