domingo, 15 de agosto de 2010

A IMPRESCINDIBILIDADE DA LEITURA...

TEXTO 1 – O ATO DE LER
Poucos brasileiros entendem o que lêem. Não passam de 25% segundo pesquisa recente do Ibope. Vale dizer que a maioria da população mantém-se nos limites de uma deficiência instrumental que torna sombrio o prognóstico quanto ao futuro da nação.
A leitura é um dos últimos recantos da liberdade intelectual. Quem lê cria tanto ou mais que o autor. Com a imaginação solta, o leitor elabora mentalmente os cenários, compõe o perfil das personagens, interpreta diálogos, identifica afinidades pessoais e vive, a seu modo, o prazer e a infinitude das emoções potencialmente contidas no texto.
Quem lê não recebe imagens prontas, coloridas, acabadas. Tem de construí-las pelo processo do entendimento e interpretação. Suas emoções não são pautadas pelas vinhetas da mídia eletrônica que padronizam as emoções do telespectador sempre passivo, para modelar a opinião pública que interessa aos produtores. O leitor nunca é passivo. Exercita, o tempo todo, os mecanismos psicodinâmicos que fundamentam, estruturam e aperfeiçoam a consciência. Por isso, desenvolve a criatividade, refina a percepção, aprimora o senso crítico e fica imune às manipulações que a comunicação pela imagem veicula como ingredientes de dominação.
A leitura é problematizadora, induz a reflexão, suscita hipóteses, faz pensar. Já a comunicação pela imagem, ao ser utilizada como ferramenta de controle da opinião pública, é a negação do pensamento. Não passa de show visual cheio de efeitos especiais que despertam a sensação do fantástico, do extraordinário, do instantâneo e promovem a preguiça mental do expectador por meio do deslumbramento programado. E o deslumbrado não pensa, admira. Não critica, assimila. Não forma sua opinião, repete a que recebe. Não reage, absorve. Não cria, consome. Não resiste, deixa-se aculturar. Não se afirma, submete-se.
Não por acaso, as sociedades menos desenvolvidas e mais dominadas são justamente as que menos lêem. São aquelas que admitem o analfabetismo com naturalidade, se é que suas elites não o perpetuam deliberadamente. Aliás, um dos indicadores de desenvolvimento usados na atualidade é o número de televisores difundidos pelo país. Não é o número de livros publicados ou lidos pelo cidadão. Os grupos dominantes sabem muito bem que a palavra escrita é incontrolável e portanto libertadora, enquanto a imagem pode ser “ cientificamente” editada para inibir a liberdade de pensamento. Nesse sentido, a palavra pertence à sintaxe da revolução, enquanto a imagem é a fonte da ilusão conservadora.
A Santa Inquisição não queimava apenas as bruxas e os hereges. Incinerava montanhas de livros em praça pública para que não fossem lidos. Da mesma forma, em nosso país, agentes dos governos militares invadiam casas de “subversivos”, apreendiam e destruíam livros cujos títulos e autores integravam a lista dos proscritos do regime. Os jornais escritos foram duramente censurados, quando não empastelados. Em vez de criarem escolas para alfabetização e estímulo à leitura, optaram pela rede de televisão concebida como monopólio destinado a subjugar o povo, impondo-lhe novos padrões de consumo e dependência externa.
Nos primeiros momentos, houve necessidade de recurso às tropas para sufocar a resistência das gerações ainda formadas pela leitura. Mas, com o passar dos anos, a estratégia de controle pela mídia eletrônica produziu os resultados projetados. As gerações educadas pelos shows domingueiros e pela Xuxa de todas as manhãs foram se distanciando do hábito de ler e se desinteressando da palavra, do pensamento crítico, do vernáculo. A invasão cultural não tardou a nos americanizar, transformando-nos em consumidores da Disney, da violência enlatada, ou dos Big-Macs que já têm o sabor dos novos tempos.
A comunicação pela imagem eletrônica é a tropa de ocupação dos tempos modernos. Sua eficiência é indiscutível. O império mais violento da história da humanidade é mantido e ampliado por meio das imagens cuidadosamente montadas que nos chegam via satélite. O último recanto da liberdade intelectual vai sendo assim tomado de assalto pela ditadura eletrônica. O pensamento humano tornou-se prisioneiro de telas e cabos. Contudo, nos piores momentos de repressão, nunca se deixou de escrever e ler. Ainda que clandestinamente. E foi, quase sempre, na clandestinidade que se produziram os textos e leituras que transformaram a história do homem.
O escritor e o leitor dos dias atuais não são espécies em extinção, mas militantes da resistência libertária empurrados para a clandestinidade. Vivem nas catacumbas do atual império, mantendo, com a palavra escrita e a leitura, a réstia de luz transformadora que emana do ato de pensar para iluminar os rumos do futuro.
Artigo publicado no Correio Braziliense 24/09/2003 por Dioclécio Campos Júnior.
TEXTO 2 - "LEITURA, PRA QUE TE QUERO"
A leitura tornou-se uma obrigação no mundo pós-moderno. Ler jornal para nos mantermos informados dos acontecimentos da nossa cidade, do nosso país, do mundo... Ler obras técnico-científicas para adquirirmos conhecimento... Ler romances para nos distrairmos... Ler literatura de auto-ajuda para sermos bem sucedidos... Afinal, ler pra quê?
Essa pergunta, aparentemente simples, engloba uma série de fatores, incluindo o próprio conceito de leitura, que não é único nem definitivo: modifica-se através dos tempos, acompanhando as alterações do mundo. Chartier comenta que a invenção da imprensa, no século XV, transformou profundamente a reprodução de textos e a produção de livros, mas a revolução eletrônica, a que hoje assistimos, introduz modificações bem mais profundas. Essas modificações abrangem não apenas as formas e a materialidade do suporte, mas também a própria prática da leitura.
Essas transformações revolucionárias da ciência e da técnica, incorporadas ao nosso cotidiano, colocam-nos diante de um mundo novo, onde tudo é transitório e relativo, e exige do homem a busca de soluções originais e eficazes para seus problemas. Esse novo homem __ o “homem-massa”, dizem alguns __ tem novas necessidades e novos desejos. E, nesse contexto, a leitura não pode ser reduzida à mera decodificação de sinais, vinculada à alfabetização (aprender a ler e escrever). Antes deve ser entendida como “atribuição de sentidos”, podendo, inclusive, significar “concepção”, posição defendida por Paulo Freire, ao discutir a necessidade da “leitura de mundo” preceder a “leitura das palavras”.
Nessa perspectiva, somos levados a refletir sobre a emergência dos inumeráveis analfabetos, mas não no sentido de “iletrados”. Estes têm diminuído sensivelmente, graças a programas educacionais extensivos à grande maioria da população. O mundo pós-moderno originou outros tipos de analfabetos: o analfabeto digital, o analfabeto funcional, o analfabeto psicológico...
O primeiro diz respeito ao indivíduo que desconhece as técnicas da informática, o que poderá excluí-lo da leitura digital e, conseqüentemente, impedi-lo do acesso às informações veiculadas nesse poderoso veículo de comunicação e informação, que é a Internet.
Já o segundo, o analfabeto funcional, refere-se àqueles que, tendo passado pela fase da alfabetização propriamente dita, não encontram dificuldade para decodificar os signos lingüísticos, mas são incapazes de estabelecer relações de sentido. É bom lembrar que, ao contrário do que muitos supõem, o analfabeto funcional não é exclusividade do Brasil. Saramago, em entrevista pela televisão, mostrou-se preocupado com sua presença na Europa e até mesmo nos Estados Unidos.
O analfabeto psicológico __ talvez o mais grave __ é apontado por Mills como o homem-massa, originário da cultura de massa, voltada às leis do mercado, ou seja, ao lucro imediato. Uma sociedade que vende cultura e para isso precisa agradar o consumidor, seduzi-lo, poupando-lhe o esforço de pensar. Apresenta-lhe tudo pronto para ser consumido, sem exigir-lhe nenhum esforço físico e muito menos intelectual. Cuidando apenas do espectador médio, do ouvinte médio, do leitor médio, oferece-lhe produtos culturais médios... Não há estímulo à sensibilidade, à imaginação, à reflexão e à crítica. Não há descoberta, criatividade, liberdade... Apenas alienação!
Contra tudo isso, a leitura será nosso poderoso aliado, desde que, como mediadores que somos, propiciemos oportunidades para a leitura de diferentes textos, quanto a gênero, suporte, época... Ler sem nenhum tipo de preconceito. Ler para conhecermos melhor a realidade, ler para caminharmos por nossos próprios pés, seguindo nossa própria cabeça! Ler para sermos livres!...
Ler é essencial. Através da leitura, testamos os nossos próprios valores e nossas experiências com as dos outros. No final de cada livro, ficamos enriquecidos com novas experiências, novas idéias, novas pessoas. Eventualmente, ficamos a conhecer melhor o mundo e um pouco melhor de nós próprios.
Ler é estimulante. Tal como as pessoas, os livros podem ser intrigantes, melancólicos, assustadores, e por vezes, complicados. Os livros partilham sentimentos e pensamentos, feitios e interesses. Os livros colocam-nos em outros tempos, outros lugares, outras culturas. Os livros colocam-nos em situações e dilemas que nós nunca poderíamos imaginar que encontrássemos. Os livros ajudam-nos a sonhar, fazem-nos pensar.
NADA DESENVOLVE MAIS A CAPACIDADE VERBAL QUE A LEITURA DE LIVROS. Na escola aprendemos gramática e vocabulário. Contudo, essa aprendizagem nada é comparada com o que se pode absorver de forma natural e sem custo através da leitura regular de livros.
Alguns livros são simplesmente melhores que outros. Alguns autores vêem com mais profundidade o interior de personagens estranhas, e descrevem o que eles vêem e sentem de uma forma mais real e efetiva. As suas obras podem exigir mais dos leitores: consciência das coisas implicadas em vez de meramente descritas, sensibilidade às nuances da linguagem, paciência com situações ambíguas e personagens complicadas, vontade de pensar mais profundamente sobre determinados assuntos. Mas esse esforço vale a pena, pois estes autores podem proporcionar-nos aventuras que ficam na nossa memória para toda a vida.
Relativamente aos escritores em si, é difícil muitas vezes começar a ler livros de um novo escritor, o que nos leva a desistir ao fim de poucas páginas.
É essencial perseverar. A maioria da boa escrita é multifacetada e complexa. É precisamente essa diversidade e complexidade que faz da literatura uma atividade recompensatória e estimulante.
Muitas vezes um livro tem que ser lido mais de uma vez e com abordagens diferentes. Estas abordagens podem incluir: uma primeira leitura superficial e relaxada para ficar com as principais idéias e narrativa; uma leitura mais lenta e detalhada, focando as nuances do texto, concentrando-nos no que nos parece ser as passagens chave; e ler o texto de forma aleatória, andando para trás e para frente através do texto para examinar características particulares tais como temas, narrativa, e caracterização dos personagens.Todo o leitor tem a sua abordagem individual, mas o melhor método, sem dúvida, de extrair o máximo de um livro é lê-lo várias vezes.

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